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Cineastas do interior do Ceará reforçam papel do sertão como polo do cinema

Produções locais ampliam o mapa do audiovisual para além da capital e revelam novas narrativas sobre o Estado

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GABRIELA TAVARES – Longe dos holofotes de Fortaleza, o interior do Ceará se afirma, cada vez mais forte, como um polo de cineastas que transformam a paisagem árida em tela viva de experiências estéticas e sociais. Coletivos e realizadores locais constroem um cinema que parte de cada pedaço do território, carregando nas obras personagens, vozes e memórias do sertão.

Toda movimentação cinematográfica produzida no interior cearense revela que o local não apenas produz, mas como reinventa o audiovisual contemporâneo do estado. Sem depender, muitas vezes, de estruturas tradicionais de produção, esses realizados encontram na própria terra as condições para criar e circular seus filmes.

Natural de Meruoca, Augusto Cesar dos Santos, roteirista, produtor e diretor, participou de produções do tipo curta e longa-metragem, nas categorias ficção e documentário, contando também com uma websérie. O cineasta explica como alguns projetos são financiados. Segundo ele, o trabalho pode ser feito de duas formas, com parcerias governamentais ou gastos independentes.

Parte das iniciativas são custeadas pelo Governo do Estado do Ceará, por meio da Secretaria da Cultura, e a outra parte é com recursos próprios ou captados de outras fontes. Tais colaborações viabilizam realizações em diferentes segmentos da economia criativa e fortalecem a rede de produção audiovisual no interior do estado, segundo o diretor.

Cesar ressalta que as produtoras, Argumento Produções e Narrativa Entretenimento, atuam na área de formação em cinema e outras linguagens artístico-culturais, resultando então em parcerias estratégicas com instituições como o Ministério da Cultura, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE).

Em caso de limitação dos recursos financeiros, esclarece o diretor, torna-se maior a busca de compensação com maiores investidores em etapas que exigem esforço criativo, especialmente na roteirização. “Cada projeto é concebido considerando suas possibilidades reais de execução, o que nos leva a construir linguagens e soluções estéticas compatíveis com o orçamento disponível”, analisa Augusto.

O cineasta aponta uma de suas produções como exemplo para ilustrar o sertão para além dos estereótipos comuns. O longa-metragem de animação “Um Natal no Sertão” procura mostrar outra visão para além da caatinga como uma “terra arrasada”. A iniciativa apresenta a pluralidade do local, incluindo os períodos de inverno. A narrativa destaca o interior vivo, colorido e pulsante, distante de estigmas.

Cesar conta que os equipamentos utilizados nos projetos vão de acordo com o porte da produção. Alguns acabam por ser locados de uma produtora em Fortaleza, em outras situações, parcerias com fornecedores regionais são firmadas, para então haver o uso de aparelhos mais básicos.

Após o processo de produção, onde os trabalhos geralmente são voltados a documentários, a equipe retorna em cada cidade que percorreu durante o registro do filme para exibir o material para as comunidades. Além de exibições locais, o conteúdo produzido é encaminhado para mostras e festivais de cinema, integrando o catálogo de cineclubes e, em alguns casos, são licenciados para plataformas de streaming e canais de TV.

Em novembro de 2025, o Instituto Tapuia realizou mais uma edição do CINE MERU, festival que integra produções de toda a região norte do Ceará. O evento possibilita espaço para formação e intercâmbio entre produtores criativos, fortalecendo então o movimento audiovisual regional.

Atuando profissionalmente com filmes documentários em Juazeiro do Norte, Felipe Teixeira Caixeta, cineasta, analisa que a busca por editais públicos do Estado do Ceará e de municípios, além do Governo Federal, é um caminho para o financiamento das produções.

Jornalista e roteirista, Caixeta também faz uso da Lei Federal de Incentivo à Cultura, trabalhando ainda com dois projetos aprovados pelo Programa Nacional de Cultura (MINC/PRONAC). Os trabalhos, às vezes, exigem patrocinadores de iniciativas privadas.

“Quanto menos recursos, menos pessoas trabalhando, menos pessoas pensando, executando. Isso afeta drasticamente a estética cinematográfica. O cinema não é apenas autoral. O cinema é uma prática coletiva”, salienta o cineasta.

Os editais e a escassez de recursos resultam em muitas concessões por parte da produção. As consequências são equipes restritas, o que influencia no resultado do material cinematográfico, revela Caixeta.

“O que fazer depois da produção do filme é um desafio no interior. Não há catálogos. Tudo acaba perdendo a possibilidade de redes comunitárias. Estamos sendo explorados por plataformas digitais que deveriam pagar pelo exibição do filme”, afirma o roteirista.

FOTO: Secretaria de Cultura do Estado do Ceará

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