Campanha do Setembro Amarelo traz conscientização para prevenção ao suicídio
A psicóloga Indira Siebra destaca a importância do cuidado com a saúde mental e do apoio desde os primeiros sinais de vulnerabilidade

POR GABRIELA TAVARES – A campanha do Setembro Amarelo, que acontece durante todo o mês, trata sobre a conscientização relacionada a prevenção ao suicídio, reestruturando preconceitos e estigmas. A ação retrata também o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio (WSPD), no dia 10 de setembro, com o objetivo de chamar a atenção de governos e da sociedade civil para a significância do assunto.
A data foi estabelecida pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio e endossada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), representando uma ação coletiva para lidar com a questão da saúde pública. A campanha foi inspirada pela história do jovem Mike Emme, que cometeu suicídio aos 17 anos, nos Estados Unidos, em setembro de 1994.
Emme tinha um carro amarelo e no dia de seu velório, familiares e amigos distribuíram cartões com fitas amarelas e frases motivacionais para pessoas que pudessem estar passando por um momento vulnerável ou que tivessem doenças mentais e emocionais.
As fitas amarelas se transformaram no símbolo da campanha, sendo acolhida pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em 2015.
A psicóloga Indira Siebra, com experiência acadêmica e prática clínica voltada à prevenção do suicídio e acolhimento de crianças, adolescentes e adultos em vulnerabilidade emocional, analisou a razão pela qual esse fenômeno ainda é considerado “tabu”.
“O suicídio infantil ainda é um grande tabu porque ele nos confronta com algo que socialmente é muito difícil de aceitar: a ideia de que uma criança pode desejar ou até mesmo tentar interromper a própria vida”, explicou a profissional.

“Culturalmente, a infância é associada à inocência, alegria e proteção, então falar em sofrimento psíquico tão intenso nessa fase causa muito desconforto. Muitas vezes, famílias, escolas e até profissionais têm dificuldade em enxergar sinais de sofrimento nas crianças, seja por desconhecimento, seja por medo de tocar no assunto”, observou a psicóloga, ressaltando que “o silêncio reforça o estigma e dificulta a busca de ajuda precoce”.
Siebra examinou fatores psicológicos que podem agir como influência. “Entre os principais, estão experiências de violência física, psicológica ou sexual; situações de negligência, abandono ou vínculos familiares fragilizados. Também é importante destacar o impacto do bullying, tanto presencial quanto virtual, que pode gerar sentimentos de rejeição, solidão e desvalorização”.
A especialista explicou que quadros de transtornos mentais não identificados ou não tratados podem aumentar os riscos.
“É fundamental lembrar que as crianças, muitas vezes, não têm recursos emocionais suficientes para lidar com frustrações ou conflitos intensos, o que pode levar a uma sensação de desesperança”.
Segundo Siebra, a família tem papel central na prevenção ao suicídio, uma vez que é no ambiente familiar que a criança constroi referencias de cuidado, segurança e pertencimento. “Atitudes de acolhimento, diálogo aberto e escuta sem julgamentos são fundamentais para que a criança se sinta segura em compartilhar seus sentimentos, inclusive os mais difíceis. Demonstrar afeto, validar as emoções e acompanhar de perto a rotina da criança ajudam a fortalecer vínculos de confiança”.
“Por outro lado, a ausência de diálogo, a desvalorização dos sentimentos, atitudes autoritárias ou a negação do sofrimento podem agravar a sensação de solidão e desamparo. É importante que pais e responsáveis compreendam que buscar apoio profissional diante de sinais de sofrimento não significa fragilidade, mas sim cuidado e responsabilidade. Quando a família se envolve de forma atenta e afetiva, cria-se um espaço protetivo que pode ser decisivo na prevenção”, compartilhou a psicóloga.
A profissional observou também como as redes sociais e o acesso precoce à internet impactam a saúde mental na infância. “Por um lado, a tecnologia pode oferecer oportunidades de aprendizado, socialização e entretenimento, mas, por outro, expõe as crianças a conteúdos inadequados, comparações constantes e pressões por aceitação social”.
“Situações de cyberbullying, exposição a discursos de ódio ou imagens violentas podem gerar ansiedade, baixa autoestima e sentimentos de inadequação. Além disso, o uso excessivo das redes pode reduzir o tempo dedicado a atividades de lazer saudável, sono e interações presenciais, elementos essenciais para o desenvolvimento emocional”, Siebra relembra que os responsáveis devem acompanhar o uso de telas de jovens para a promoção da proteção emocional.
“O momento de procurar ajuda profissional deve ser considerado sempre que houver sinais de sofrimento intenso, mudanças bruscas de comportamento, isolamento, tristeza persistente, falas sobre querer morrer ou comportamentos de automutilação”, destaca a psicóloga sobre a ocasião em que se deve pedir ajuda profissional.



