Governo Milei estaria por um fio após suposto caso de corrupção envolvendo a irmã

Na última sexta-feira (22), a Justiça da Argentina cumpriu ao menos 16 mandados de busca em uma investigação sobre um suposto esquema de propina que pode atingir integrantes do alto escalão do governo Javier Milei, entre eles, sua irmã, Karina Milei. O caso gira em torno da Agência Nacional da Pessoa com Deficiência (ANDIS) e da compra de medicamentos para o Estado. A apuração começou após a divulgação de áudios atribuídos ao ex-titular da agência, Diego Spagnuolo, nomeado por Milei para assumir o cargo em 2023.
O episódio ocorre logo após deputados do Congresso argentino barrarem o veto de Milei a fundos destinados a pessoas com deficiência, o que representaria um ataque direto aos direitos humanos, desencadeando uma onda de protestos em Buenos Aires contra o presidente. A votação dos deputados contra o veto foi de 172 votos a 73 e 2 abstenções. Até a última quinta (21), Spagnuolo estava à frente da ANDIS, o órgão com o terceiro maior orçamento do Estado argentino.
O jornalista Rogério Tomaz Jr, que está acompanhando o caso de perto, revela que os áudios apareceram esta semana onde Spagnuolo afirma que o governo exigia propina de laboratórios que firmavam contratos com a agência sob sua direção e que Karina Milei e Eduardo “Lule” Menem, primo do presidente da Câmara, são mencionados nominalmente como articuladores do suposto esquema. Além disso que um dos principais jornalistas de direita do país Eduardo Feinmann, aparece “escolhendo cada palavra que vai dizer, e fala que o governo Milei teria o seu ‘game over’ se Spagnuolo virar delator premiado.”
Antes de Javier Milei chegar à presidência da Argentina, Diego Spagnuolo era apenas um advogado no meio comercial. Sua trajetória começou quando decidiu Milei incluí-lo em sua lista de candidatos a deputado nacional em 2021. Após vencer a eleição, Milei não apenas levou Spagnuolo para seu círculo de confiança, como o nomeou para chefiar a agência. A nomeação gerou surpresa, já que o advogado não possuía experiência na área, segundo Tomaz Jr., mas mostra que há uma proximidade pessoal entre o presidente e agora o ex-dirigente, demitido por ele após a polícia argentina revelar o caso de corrupção.
Áudios apontam que Milei teria conhecimento do esquema
Em um dos áudios, Spagnuolo chega a afirmar: “Falei com o presidente e lhe disse: estão roubando, você pode fingir que não sabe, mas não joguem esse problema para mim, tenho todos os WhatsApps de Karina”, diz o trecho que revela o envolvimento indireto do presidente argentino no suborno. Em outro trecho, Spagnuolo ele detalharia a distribuição da lavagem de dinheiro:
“Karina deve receber 3 ou 4. Acho que recebe 3, porque devem dizer que o 5 é dividido: 1% vai para a operação, 1% para mim e Karina fica com 3%”
Os áudios foram publicados pela imprensa argentina, mas ainda não se tem confirmação da veracidade e contexto, o caso corre em processo de investigação. Ivy Cagnaro e Mauro Federico são os jornalistas argentinos que tornaram o material público em seu programa Data Clave. Eles detalha ainda como funcionaria o circuito: a drogaria Suizo, incluída nas buscas da polícia argentina, liga para os fornecedores, ajustando os valores que deveriam ser pagos, e repassaria o montante à Presidência.
Se todo o material for confirmado, o esquema envolvendo Menem, Suizo Argentina e ANDIS já estaria ocorrendo desde o início da gestão. Em 2024, a ANDIS destinou quase 30 bilhões de pesos para compra de produtos medicinais de uma drogaria ligada ao presidente da Câmara, Eduardo Menem. Até o momento, o ex-dirigente não se pronunciou sobre o vazamento.
Preconceitos reverberam na própria agência
Em janeiro de 2025, a Agência Nacional das Pessoas com Deficiência publicou a Resolução 187 no Diário Oficial, assinada por Spagnuolo. No texto, ainda foram usados termos considerados ofensivos, como “idiota”, “você como um idiota”, “idiota” e “mentalmente retardante”, para classificar diferentes graus de deficiência intelectual. A resolução estabelecia critérios de avaliação para o acesso ou manutenção das pensões por invalidez.
A reação foi imediata: associações de familiares, entidades médicas e especialistas repudiaram a linguagem utilizada e exigiram a revisão dos regulamentos. Após a polêmica, a ANDIS anunciou alterações na resolução, e o próprio Spagnuolo relatou o deslocamento de dois funcionários.
Em 27 de fevereiro de 2025, o governo confirmou que a Resolução 187 seria corrigida, atendendo à indignação de organizações que defendem os direitos das pessoas com deficiência. Finalmente, em maio de 2025, por meio da Resolução 1172/2025, o Poder Executivo revogou a escala aprovada em janeiro e ordenou a elaboração de uma nova proposta, atualizando os critérios técnicos e metodológicos em conformidade com normas internacionais.



